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Pesquisa revela importância de ensino contextualizado no Semiárido

Nos livros didáticos o semiárido aparece como um lugar de miséria, sem água, sem comida, uma área sem futuro para quem nela habita. É essa visão que os alunos da rede públicas dessa região têm do local onde vivem. Essa distorção foi constatada na pesquisa “Educação para a Convivência com o Semiárido Brasileiro: realidade na prática pedagógica”, realizada por pesquisadores do Centro de Estudos em Dinâmicas Sociais e Territoriais (Cedist), da Diretoria de Pesquisas da Fundaj, em parceria com a Rede de Educação do Semi-Arido Brasileiro (Resab) e o Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), além de representantes de instituições governamentais e da sociedade civil.

O trabalho identificou os conceitos de convivência com o semiárido brasileiro trabalhados na prática pedagógica, além de verificar como esse conhecimento vem sendo incorporado pelos professores no cotidiano das escolas públicas. As bases teóricas da pesquisa se apoiaram nas propostas pedagógicas das redes municipais de ensino de Curaçá, Sento Sé e Uauá, na Bahia.

“Trabalhamos para verificar se os professores estavam tratando sobre o assunto e se os alunos estavam absorvendo. Ficamos surpresos ao perceber que, até então, os conhecimentos são rasos”, afirmou a coordenadora da pesquisa e do Cedist, Edilene Pinto.

Boa parte dos professores, explica, expressaram incompreensão do significado do termo trabalhado. Ou se ativeram a clichês, apesar de afirmarem ter recebido formação continuada em Educação Contextualizada no semiárido para o conhecimento que lhes faltava sobre a região.

Os alunos foram mais verdadeiros ao dizerem não saber, não ter aprendido ou não saber dizer o significado de semiárido. Na teoria, as secretarias de educação declararam que todo seu corpo docente havia participado de formação continuada na perspectiva da proposta, mas na prática essa afirmação foi contrariada.

“Acredito que, durante o período de pesquisa, por causa da mudança de gestão nos municípios, houve troca de professores. Dessa forma, muitos dos que receberam capacitação anteriormente não estavam mais ensinando nos colégios no momento em que foram analisados”, afirmou a coordenadora da pesquisa.

Comparando as respostas dos alunos e professores, houve discrepância no que diz respeito a convivência com o semiárido. Enquanto, segundo os docentes, a mesma teria sido tratada na sala de aula, as respostas dos alunos sobre aspectos negativos da região revelaram uma visão que a nega como possibilidade de convívio, contrariando, assim, a essência da proposta: procurar modificar a visão de mundo e a representação social sobre o semiárido, desmistificando a ideia de que é lugar de miséria e de seca, onde só tem chão rachado.

Uma explicação para a não inserção plena da Ecsab na vida escolar de professores e alunos se encontra na disponibilidade insatisfatória de material didático contextualizado. A proposta pedagógica feita depois da análise, cujo pressuposto seja o da educação contextualizada, exige um maior investimento na formação continuada de professores e na produção de material didático contextualizado, de modo a criar as condições para que os alunos possam produzir sentidos para o mundo que os cerca, e assim, consolidar a política de Educação para a Região Semiárida Brasileira.

Por fim, é possível notar que, apesar das falhas, houve mudanças nas comunidades onde as escolas estão inseridas, a partir da adoção da Ecsab. Maior participação dos pais na escola, envolvimento cada vez maior dos moradores da comunidade nos assuntos da escola, fortalecimento da cultura local e a parceria escola-comunidade na discussão das questões locais visando o bem comum são reveladores dessas mudanças. Porém, ainda há muito a ser feito, tanto nesses municípios que já possuem acesso a Ecsab, quanto nos que ainda não possuem. “Pretendemos levar a Ecsab para municípios onde essa prática ainda é desconhecida, e assim, promover a valorização da cultura no semiárido brasileiro”, finalizou Edilene.

A pesquisa:

A pesquisa surgiu na I Conferência Nacional de Educação do Semiárido (Conesa), realizada em Juazeiro, na Bahia (BA), em maio de 2006. Promovida pela Rede de Educação do Semiárido Brasileiro (Resab), o evento discutiu e elaborou as Diretrizes da Educação para a Convivência com o Semiárido Brasileiro. A partir daí, foi tomada a decisão de que a contribuição da Fundaj, que é integrante da Resab, seria a realização de uma pesquisa nas escolas públicas daquela região. O que também envolveria o Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa).

Em abril de 2008, o projeto foi aprovado pela Comissão de Pesquisa da Diretoria de Pesquisas Sociais da Fundaj (Compesq/Dipes/Fundaj) e teve início imediato. A pesquisa de campo aconteceu com a escuta dos professores e alunos dos três municípios, por meio de questionários.

Fonte: folhape.com.br

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